+A História de Edgard Soares

O Homem

O motociclismo em São Paulo nasceu nos anos 20 no cruzamento da Rua Barão de Limeira com a Rua General Osorio, local que ficou e é conhecido como a Esquina do Veneno. Edgard Soares nasceu em 27 de setembro de 1928 e sua vida confunde-se com o motociclismo sul-americano – os dois começaram a engatinhar juntos.

Edgard morava no Ipiranga, perto do Museu. Seu pai era motorista de Edgard de Souza o superintendente da Light na época, que emprestou seu nome a grande barragem da usina que fornece energia para São Paulo até os dias de hoje. A vida motociclistica de Edgard Soares começou aos 7 anos, quando seu pai, que gostava muito de mecânica, instalou um motor Ilo 2T de 98cm3 em sua bicicleta de aro 14“. E Edgard começou a andar nos jardins do Museu do Ipiranga. A andar e descobrir os “mistérios” de dominar uma bicicleta com motor. Então percebeu que poderia mexer e fuçar no motor e na bicicleta, melhorando seu desempenho.

Com 13 anos, cursando o Ginásio do Carmo “pegou emprestada” de um colega. Era uma bicicleta com motor Sachs e Edgard fez algumas pequenas modificações, fato que desagradou o colega e o Padre Vicenzo Salvia, seu professor, que mandou escrever 1.000 vezes na lousa “nunca mexa na bicicleta dos outros”...
Mal sabia o Padre Vicenzo Salvia, da sua imensa contribuição para a história do motociclismo, pois em seguida Edgard Soares com 14 anos, foi trabalhar em uma oficina de motos de seu tio Felipe Carmona. Começou lavando “peças na privada”, montar e desmontar motocicletas e é claro, fuçar e descobrir o “porque de como andar mais”, pois queria... correr, é claro!

Em 1946 após a morte de seu pai, tendo como tutores seu tio Felipe Carmona e o dentista Ângelo Gaeta, começou a correr em uma Matcheless 350 monocicindrica de 4T com rabo duro. O legal (ou ilegal?) nesta história é que a Matcheless tinha “chapa branca”, ou seja era uma placa oficial, pois a moto pertencia a Secretaria da Educação. Nas sextas feiras, Ângelo Gaeta levava a moto para a oficina de Carmona e Edgard a preparava - com a anuência de Gaeta - para as corridas e treinos de sábado e domingo... No domingão a noite, tirava o “number plate” com o #46 – número que usou a vida toda – e “voltava” a moto ao original, para o uso Oficial da Secretaria da Educação de São Paulo....E assim foi campeão Paulista em 1946 e 1947.

Nesta época, a Isnard, uma conhecida loja em São Paulo, lá na Avenida São João, importou a Velocette 350 KTT, uma verdadeira “puro sangue” monocilindrica 4T para a época. A suspensão dianteira possuía garfos do tipo estilingue e amortecedores traseiros a ar. Edgar correu com a Velocette 350 nas categorias 350, 500 e 500 especial. E ganhava todas as provas. Só perdeu uma prova em Interlagos e outra em Santos, na Avenida Afonso Pena, para Caio Marcondes, que corria com a estupenda Norton Manz 500, o máximo que podia haver em motocicleta. E Edgard Soares tornou-se conhecido e passou até a ser assediado por políticos como Adhemar de Barros, Lucas Nogueira Garcez e Silvio de Magalhães Padilha, pratica já comum naquela época para angariar votos.

A partir de 1948 Edgard passou a correr com a legendária Norton Manz 500, tornado-se imbativel. Em 1952 a Trivellato importou as novíssimas Vincent 500, a ultima novidade na época em motos de competição. Então foi correr na Argentina, com uma HRD 500 bi-cilindrica, que na época era distribuída pela Siemens. Claro que venceu. Foi aclamado e premiado por nada menos que Juan Peron (aquele que era casado com a imortal Evita Peron...).

Em 1954, ano do quarto centenário de São Paulo, data amplamente comemorada com uma inesquecível chuva de prata no Anhangabaú – lembram-se? – foi realizado um campeonato em Interlagos, patrocinado pela Prefeitura Paulista, com os mais famosos pilotos do mundo. (Diziam na época, que apesar do evento ter sido um grande sucesso e com grande repercussão, a Prefeitura não pagou ninguém...) Edgard estava em segundo lugar, atras do campeão inglês Ray Amis, quando quebrou um dos amortecedores traseiro de sua moto. Foi para o box, trocou o amortecedor e voltou em 49o lugar. Na ânsia de recuperar posições, - enquanto o inglês virava Interlagos em 3’57” – fez o tempo de 3’54”, tempo recorde de Interlagos, somente baixado pelas Yamaha 350 2T, 17 anos após.

Desde 1950 - até os dias de hoje - Edgard Soares, junto com seus filhos Edgarzinho e Lena tem sua loja e oficina na Esquina do Veneno (que custou o equivalente a 20 Monzas – sic) com um simpático banco de jardim estrategicamente colocado na calçada, onde seus privilegiados amigos podem sentar-se para jogar conversa fora nas tardes paulistanas.
Nossa profunda admiração e respeito por este homem, um dos responsáveis por tudo que sabemos hoje e por nossa enorme paixão pelo motociclismo.

Texto: Julio C. Carone

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